domingo, 12 de novembro de 2017

História que não saberemos contar aos nossos netos, por J. Carlos de Assis

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Um dia tentaremos contar a nossos filhos e netos a inacreditável história de um grande país que, como a Somália, tornou-se presa de piratas e bandidos. Será uma fábula envergonhada, pois nossos filhos e netos perguntarão espantados: “E vocês não fizeram nada?” O problema, nos desculparemos, é que ficamos esperando um pelos outros, tomando como verdade as fantásticas declarações da presidente do Supremo Tribunal Federal segundo as quais “as instituições brasileiras estão funcionando muito bem”.

Acabo de ver pela televisão o presidente da República recebendo a visita de um conhecido bandido que lhe serviu como doleiro durante décadas. Depois, em solenidade com grande gala, vi o presidente conferir a um ministro acusado de formação de quadrilha, Moreira Franco, a gerência de um fundo publicitário de 1,8 bilhão de reais. Em seguida, a televisão registra grande movimentação na Câmara para impedir a continuidade dos inquéritos contra o presidente e seu séquito, inclusive junto ao Supremo Tribunal Federal.

Loucos. Acham que podem enganar todos por todo o tempo? Estão empoleirados nos seus mandatos e acreditam que o povo não tem memória, que o dinheiro das emendas que estão recebendo agora do Governo lhes garantirão a reeleição no próximo ano? O espetáculo repugnante na Câmara incluiu manobras para desidratar o projeto de abuso de autoridade com o objetivo óbvio de comprar a simpatia de juízes, promotores e policiais que abusam do seu poder em detrimento de legítimos direitos dos cidadãos. A moeda de troca da Lava Jato é ignorar os bandidos do Parlamento e concentrar fogo em empresas que geram empregos e multas.

Por tudo que conheço de Ciência Política me tranqüilizo diante do jogo abjeto comandado pelo Palácio do Planalto para esconder os crimes de seu principal ocupante e de seus comparsas. É que isso não pode, não vai continuar para sempre. Quanto mais artifícios os criminosos criam para disfarçar o assalto aos cofres públicos e a venda de favores a apaniguados privados, pior para eles: mais se acumula o ódio, o desprezo e o desejo de vingança. Chegará o momento em que teremos piedade deles, e agradeceremos a Deus por não ter pena de morte no Brasil. Quem viver verá! E os que não viverem, terão seus filhos e netos por testemunhas do cortejo infame no trajeto entre o Planalto e a Papuda.

A que se deve essa ignomínia? Tudo começa no impeachment, onde opositores sinceros de Dilma se juntaram a oportunistas e ladrões formando os dois terços do Parlamento indispensáveis para o afastamento da Presidenta. Isso possibilitaria uma base parlamentar para a aprovação a toque de caixa de múltiplas iniciativas legislativas, agora consolidada por bom dinheiro sonante. No momento atual, ligeiramente desgastada, essa base ainda é mantida pela venda ou pela expectativa de vender o mandato. Entretanto, tendo em vista eleições no próximo ano, joga-se tudo na ilusão da melhora da economia e do emprego, em confronto com a revolta que traria, por exemplo, a reforma da Previdência. É nesse ponto que se pode rememorar Lenin: a verdade é revolucionária. Por isso, não precisamos gastar muita retórica para que o próprio sistema corrupto acabe mandando os vendilhões do templo para a Papuda.

José Carlos de Assis é economista, doutor em engenharia pela COPPE-UFRJ e jornalista premiado. Autor de mais de 20 livros.

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